E se a água potável acabar?
O que aconteceria se a água potável do
mundo acabasse?
por Raphael Soeiro
As teorias mais pessimistas dizem que a
água potável deve acabar logo, em 2050. Nesse ano, ninguém mais tomará banho
todo dia. Chuveiro com água só duas vezes por semana. Se alguém exceder 55
litros de consumo (metade do que a ONU recomenda), seu abastecimento será
interrompido. Nos mercados, não haveria carne, pois, se não há água para você,
imagine para o gado. Gastam-se 43 mil litros de água para produzir 1 kg de
carne. Mas não é só ela que faltará. A Região Centro-Oeste do Brasil, maior
produtor de grãos da América Latina em 2012, não conseguiria manter a produção.
Afinal, no País, a agricultura e a agropecuária são, hoje, as maiores
consumidoras de água, com mais de 70% do uso. Faltariam arroz, feijão, soja,
milho e outros grãos.
A vida nas metrópoles será mais difícil. Só a Grande São Paulo consome
atualmente 80,5 bilhões de litros por mês. A água que abastece a região virá de
Santos, uma das grandes cidades do litoral que passarão a investir em
dessalinização. O problema é que para obter 1 litro de água dessalinizada são
necessários 4 litros de água do mar, a um custo de até US$ 0,90 o m³, segundo a
International Desalination Association. Só São Paulo gastaria quase R$ 140
milhões em dessalinização por mês. Como resultado, a água custaria muito mais do
que os R$ 3 por m³ de hoje.
Mas há quem não concorde com esse
cenário caótico. "A água só acaba se você acabar com o ciclo dela",
diz Antônio Félix Domingues, da Agência Nacional de Águas. "Tudo é questão
de custo. Com dinheiro, você pode tornar até sua urina potável." Mas, se
ela acabasse, a água seria um bem disputado, motivo de guerras e de exclusão
social. "Poucas pessoas teriam acesso, provavelmente as mais abastadas. A
água poderia virar um elemento segregador", diz Glauco Freitas, coordenador
do Programa Água para a Vida, da ONG WWF-Brasil.

Guerras
aquáticas
Em 2050, a falta d'água ditaria a política e o cotidiano
Última
geleira
Em 2012, a estimativa é que 68,7% da água potável disponível está em calotas
polares ou geleiras. Sim, o aquecimento global facilitou o acesso a essa água.
O degelo já originou rios na Índia e no Nepal, por exemplo. Mas em 2050 quase
toda essa água, possivelmente, já terá virado vapor. As últimas geleiras seriam
alvos de cobiça. E, para não ter que extrair água delas, uma das soluções
seria...
...Secar
o ar
Grandes coletores de ar, que condensam a água na atmosfera, já existem e foram
testados em desertos na Índia, por exemplo. No entanto, eles teriam que ser
instalados longe dos grandes centros, pois os efeitos colaterais são graves: em
grande escala, causam de problemas pulmonares a desertificação.
Bebendo
urina
Na Estação Espacial Internacional, desde 2008 astronautas bebem água graças a
um equipamento que recicla suor e urina. Em 2050, todas as casas teriam água de
reúso para cozinhar e beber. A tecnologia de purificar líquidos de esgoto
também deverá ser popular.
Oásis
alienígena
Potências espaciais como Estados Unidos, Rússia, Índia, Paquistão e China, além
de empresas privadas, deverão iniciar uma nova corrida espacial. O objetivo
seria buscar água em asteroides e nas calotas polares de Marte, onde haveria
mais água que no solo da Lua.
Potências
aquíferas
Quem investir antes em dessalinização largará na frente. Hoje, na Arábia
Saudita, por exemplo, 70% da água é dessalinizada. Nações sul-americanas como o
Brasil também serão importantes por causa do aquífero Guarani, maior fonte de
água subterrânea do mundo, que fica sob nossos pés.
Mar
morto
Se a dessalinização é o recurso mais viável para obter água doce, ela também
gera um grande impacto ambiental. Além do gasto de energia, a dessalinização
ameaça a vida marítima nas regiões costeiras, segundo a ONG WWF. O mar vai
ficar sem sal - com o perdão do trocadilho.